Log

:

perspective

O desafio filantrópico

Sendo assim, meu grupo empresarial tinha uma missão que era movida, em parte, por motivos sociais e éticos. Por outro lado, a FUNDES, a fundação que criei na metade da década de 80, era administrada como uma empresa, com foco na eficiência e no espírito empreendedor. A Rio 92 e o BCSD tinham me ensinado o que era desenvolvimento sustentável. O sucesso obtido com os meus investimentos empresariais me proporcionou um capital que já não estava atado a esses investimentos. Todos esses fatos e experiências me fizeram pensar em dar um passo ainda maior na área da filantropia, combinando o melhor das empresas e das fundações.

O meu olhar detectava que existia uma grande necessidade de filantropia na América Latina. A maioria dos países estava passando por processos de liberalização econômica e privatização que produziam, segundo as estatísticas oficiais, um crescimento da renda per capita. No entanto, nas minhas viagens à região, observava que nos subúrbios e nas periferias as reformas macroeconômicas por si só estavam longe de serem suficientes.

Minha primeira idéia foi simplesmente oferecer dinheiro para ajudar os pobres da América Latina: crianças nas ruas, órfãos, mães solteiras, pessoas que tinham vindo do interior para a cidade à procura de novas oportunidades. Enviei então uma colega à Cidade do México e ao Rio de Janeiro para fazer uma pesquisa. Ela voltou com uma conclusão sensata: “Problemas dessa magnitude nunca poderão ser resolvidos com dinheiro, nem mesmo com todo o seu dinheiro. Você poderá ajudar algumas pessoas a terem uma vida mais fácil e digna, mas a maior parte dessas pessoas continuará sendo pobre. E o número de pobres continuará aumentando”.

Obviamente, a filantropia tradicional não era a opção que eu estava procurando. Eu precisava encontrar um catalisador para desencadear o tipo de progresso humano sustentável com o qual todos os governos do mundo tinham estado de acordo na Cúpula da Terra.

Minha próxima idéia foi uma solução empreendedora. Para mim, um bom empreendedor é alguém que desenvolve seus negócios com solidez, com uma visão e uma missão claramente definidas, uma grande capacidade de trabalho e uma habilidade especial para administrar com eficiência os recursos e as tecnologias disponíveis. Um empreendedor é uma pessoa que pode convencer outras a aceitar sua visão, motivando-as a trabalhar para alcançar tais metas. Entretanto, o empreendedor que eu imaginava aqui não teria de construir grandes empresas mas, sim, produzir mudanças sociais positivas que oferecessem ao maior número possível de pessoas a oportunidade de viver vidas dignas e produtivas, e de mudar a situação econômica regional.

Durante um vôo através do Atlântico eu li um artigo numa revista sobre uma organização denominada Ashoka. Esta organização arrecadava fundos e financiava “empreendedores sociais”. Parecia que, na verdade, eu não havia inventado nada novo: minha idéia já existia. Por meio de seus “procuradores de talentos” e de entrevistas, a Ashoka encontra pessoas com espírito empreendedor e idéias inovadoras para melhorar a sociedade. Os escolhidos recebem ajuda financeira durante um período de três anos para construir sua própria organização e têm a liberdade de implementar e expandir a sua visão.

A Ashoka acredita que tanto o empreendedor empresarial como o empreendedor social são peças do mesmo molde, pois compartilham as mesmas capacidades e trabalham de forma semelhante. A única diferença são os objetivos. Gostei deste conceito porque está alicerçado no mesmo espírito empreendedor em que eu também acredito. Sendo assim, começamos uma joint venture – ou “empreendimento conjunto” – de longo prazo. Para mim, isso significou tornar-me parceiro da Ashoka, dando à organização respaldo em termos de capital e de contatos para a sua expansão na América Latina, onde a organização só mantinha atividades no México e no Brasil. A Ashoka realmente funcionava bem naquela época, mas a partir desse ponto continuou se desenvolvendo e tem ajudado centenas de empreendedores sociais na implantação de seus projetos.

O sucesso dos empreendedores sociais da Ashoka foi, para mim, a comprovação de que os chefes de governo e os dirigentes do setor industrial – as pessoas que realmente deveriam ser os primeiros responsáveis por melhorar a sociedade – raramente conseguiam implementar mudanças significativas. Certamente, o segredo está em buscar personalidades com poder de liderança, não só na chamada elite, mas em todos os setores sociais, para, em conjunto, desenvolver uma rede.

Eu tinha a certeza de que sem líderes nunca haveria mudanças decisivas. Os líderes caracterizam-se por ter uma visão de longo prazo, idéias concretas para sua implementação e valores éticos arraigados, bem como um plano de ação e a habilidade de levar adiante seus projetos de forma bem sucedida. Além disso, são capazes de motivar outras pessoas para se juntarem em novas parcerias, criando, deste modo, a massa crítica necessária para acionar o processo de mudança.

O nascimento da AVINA

Com todas essas idéias em mente, comecei a pensar seriamente a respeito de como gerar uma nova iniciativa, contribuindo com uma parte significativa do meu patrimônio e o meu compromisso pessoal. Queria apoiar os líderes da América Latina que se esforçavam em implementar projetos voltados ao desenvolvimento sustentável.

Para fazê-lo, pensei na criação de uma organização: a AVINA. Seu objetivo seria desenvolver parcerias na América Latina com pessoas da sociedade e do mundo empresarial que tivessem espírito pioneiro, e dar-lhes apoio em suas iniciativas em prol do desenvolvimento sustentável. O meu objetivo em particular eram as iniciativas comprometidas com a igualdade de oportunidades, os processos democráticos, a educação, os programas de capacitação, a preservação dos recursos naturais e a eco-eficiência.

Por diversas razões, decidi concentrar o comprometimento da AVINA na América Latina: meu grupo de empresas já estava na região havia várias décadas; sentia que a América Latina tinha um enorme potencial e eu tinha um vínculo pessoal com esses países. Além disso, existe uma relação histórica entre a América Latina e a Europa, que se reflete em tradições culturais e em muitas facetas da vida cotidiana de seus habitantes. Finalmente, a razão mais simples é que eu gosto muito da região e me sinto realmente muito bem junto ao seu povo.

A América Latina é um imenso continente com 450 milhões de pessoas. Até há pouco tempo, muitos países que a integram foram governados por ditadores ou por regimes instáveis que, de um modo geral, conduziram esses países ao caos econômico e social. Atualmente, a democracia está gradualmente se impondo na região, e as pessoas começaram a se organizar e a participar naquelas áreas em que os governos fracassaram. Isto significa uma enorme oportunidade.

Tentei trabalhar simultaneamente em duas atividades que, normalmente, são realizadas por pessoas diferentes. Por um lado, eu queria permanecer ativo na área empresarial e aumentar a rentabilidade das minhas empresas, mas ao mesmo tempo, queria apoiar mudanças sociais. As duas atividades tinham de estar fundamentadas na mesma visão e valores. Também queria universalizar os mesmos padrões e instrumentos profissionais para aumentar a criatividade, a eficácia e a eficiência.

Em 1994, estávamos preparados para tornar a AVINA uma realidade. Nessa época, a América Latina estava passando por um verdadeiro boom de desenvolvimento. Perguntei a mim mesmo se a minha contribuição para promover o desenvolvimento ainda fazia sentido nesse contexto. Acabei concluindo que fazia mais sentido do que nunca. Como investidor, cidadão e ser humano, havia testemunhado erros que se repetiam e, como conseqüência, não tínhamos sido capazes de nos beneficiar de grande parte desse desenvolvimento que também não tinha sido alcançado de forma sustentável.

Os dois erros mais freqüentes eram: apenas uma pequena parte da população era capaz de se beneficiar do progresso; uma parte substancial do crescimento econômico fora conseguido vendendo ou destruindo os recursos naturais. Considerando a situação em que se encontrava a maioria dos países da América Latina, a minha contribuição ao desenvolvimento teria de encorajar mudanças que somente a própria sociedade poderia realizar. Por sua vez, isso significava a necessidade de encontrar os líderes adequados, que cresciam em número e capacidade, especialmente nas épocas de crise. O que eles fazem é impressionante: com pouquíssima ajuda externa, devem, freqüentemente, enfrentar estruturas bem montadas que defendem seus direitos e privilégios e que são avessas às mudanças.

Sendo assim, a minha tarefa consistiu em encontrar esses líderes por meio da AVINA e em ser para eles um parceiro confiável, capaz de ajudá-los a se tornarem mais eficientes e efetivos. Encontrar outros empresários, patrocinadores generosos e latino-americanos ricos que quisessem cooperar conosco foi, e continua sendo, um desafio adicional.

A minha idéia básica é que uma fundação moderna deve estar inspirada pelo espírito empresarial e aprender a implementar as bem-sucedidas ferramentas da iniciativa privada para ser o mais eficiente possível e otimizar os investimentos.

A forma de trabalho da AVINA

Desde o começo, a AVINA está aprendendo muito, sempre se adaptando e melhorando. Sua visao é de uma América Latina Próspera, integrada e democrática, inspirada na sua diversidade, construída sobre as bases solidárias dos cidadaos e reconhecida mundialmente por ter seu próprio modelo de desenvolvimento sustentável e global.

Os principais enfoques da AVINA sao a conservaçao e o uso de recursos naturais, o desenvolvimento econômico sustentável, a governabilidade democrática, o estado de direito e a igualdade de oportunidades.

Para conseguir isto, a AVINA identifica as melhores oportunidades com os líderes da sociedade civil e o setor empresarial,  e investe em parcerias, promovendo o desenvolvimento sustentável na América Latina. A AVINA apoia estes líderes na criaçao de sociedades e para comunicar suas mensagens de mudança a um maior número de pessoas.

Provavelmente a palavra investir reflita claramente a mudança do nosso paradigma. As fundações tradicionais fazem “doações”: elas entregam dinheiro a um determinado projeto e esperam receber informações sobre como esse dinheiro foi gasto. Dessa forma, somente algumas poucas avaliam os resultados conseguidos. Será que algo mudou? Será que algo melhorou? Se houve mudanças, quais foram? Investir pressupõe esperar algum tipo de retorno – principalmente, altos dividendos para a sociedade e para o meio ambiente – e esperamos ser capazes de definir especificamente esses retornos.

Os líderes da AVINA promovem os processos democráticos, a utilização racional dos recursos naturais, os programas de capacitação e educação, o acesso ao mercado de trabalho, a eco-eficiência, a responsabilidade social por parte das empresas, a promoção das pequenas e médias empresas e o fortalecimento das organizações da sociedade civil. Por ser um empreendimento conjunto, a AVINA compartilha com os nossos parceiros a nossa experiência em atingir metas viáveis e em definir claramente os projetos. A AVINA oferece a eles o nosso conhecimento empresarial sobre administração e eficiência das organizações, e lhes proporcionamos contatos com pessoas e organizações que trabalham em projetos semelhantes no mundo todo.

Antes do advento da Internet, fazia sentido que as fundações tivessem administrações centralizadas para familiarizar os empregados com os objetivos e a missão da entidade. Atualmente, no entanto, a Internet permite uma descentralização total, e ter uma sede não é mais absolutamente necessário. Hoje, a maioria dos nossos empregados trabalha em locais próximos ao desenvolvimento dos projetos e fazem parte das atividades em campo em vez de ficarem sentados em escritórios distantes.

Os representantes da AVINA estão localizados em diversas cidades da América Latina. Eles são nativos da região e  vivem lá. Uma de suas tarefas é encontrar e dar apoio aos líderes mais apropriados para nossas parcerias e precisam avaliar se compartilham os  os mesmos valores e objetivos de longo prazo. No decorrer deste processo, o líder avalia se os serviços e meios que a AVINA pode lhe proporcionar serão úteis. E nós verificamos se a atividade deste líder se encaixa no nosso portfólio.

A AVINA garante que todos os líderes-parceiros que trabalham na mesma região ou em áreas temáticas similares tenham a oportunidade de se encontrar, porque estamos convencidos de que os processos de intercâmbio e de aprendizagem mútua proporcionam a todos os envolvidos extraordinárias vantagens e sinergias.

Developed by The Stocker Group 2007 - 2010